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A crença do não-merecimento

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A crença do não-merecimento

Mensagem por Felicidade em Dom Fev 13, 2011 7:43 pm

Imagine que você adota um cãozinho vira-lata. Você o leva para a sua casa, alimenta, dá banho, trata, leva ao veterinário e o enche de carinho. Será que esse cãozinho iria pensar "eu não mereço nada disso, meus amigos na rua passando fome e eu aqui com esse luxo todo..."

Imagine tudo isso sendo falado em um tom dramático de culpa e "humildade". Imagine o cãozinho se sabotando. Não come mais a ração e pede para o dono comprar outra mais baratinha. Diz também que não precisa de tanto assim. Pra que tanto conforto? E os colegas da rua que não têm nada disso? E o que ele fez para merecer tudo de bom? Por que outros não tem acesso às mesmas coisas? É claro que um cachorro jamais agiria dessa forma. Ele apenas aceita e aproveita tudo que lhe é ofertado. O animal não precisa de razões para justificar ter uma vida boa. Já nós, seres humanos, temos uma tendência de precisar encontrar motivos que justifiquem as coisas que temos ou ganhamos: só me sinto confortável em ter muito se eu trabalhar muito; só consigo me sentir bem em ter uma vida boa se eu disser que passei muitos anos estudando e trabalhando para conquistar esse resultado; se eu não me sacrifico, não me sinto no direito às melhores coisas; só posso me permitir cobrar um preço mais alto se eu estudar tantos anos a mais.

Quando a criança nasce, ela não questiona se merece ou não o que recebe. No entanto, quando o pensamento vai se desenvolvendo e torna a estrutura do ego mais complexa, a mente começa a comparar, julgar e vão surgindo, em uma idade ainda muito tenra, os pensamentos de não merecimento e culpa. Inicialmente, a criança vai se comparar com os irmãos, observando se eles têm mais ou menos, se são felizes ou infelizes. Irá também começar a observar o sofrimento dos pais. E conforme for a situação familiar, quanto maior for o sofrimento, maior a tendência de se desenvolver sentimentos de culpa em ser feliz, culpa em ter, culpa em receber. Ao crescer um pouco mais, a criança irá também começar a ter contato com as pessoas do mundo exterior e seus sofrimentos, o que poderá alimentar ainda mais a sensação de culpa e não merecimento em ter uma vida melhor do que a média.

Uma infância pobre onde a criança não teve as necessidades básicas plenamente satisfeitas (alimentação, roupas, lazer e etc.) pode ser também bastante prejudicial. De tanto ouvir: Não pode; não temos; não dá; não é pra você; não é para nós (e as vezes até ‘quem você pensa que é pra querer isso ou aquilo, pensa que é melhor que os outros, pensa que é rico?) a criança cresce e vai internalizando cada vez mais que ela não pode e não merece acesso a certas coisas.

Atendi uma mulher com um intenso sentimento de não conseguir receber. Por ter um problema de saúde que exigia um gasto considerável, foi entregue para ser criada muito pequena para uma tia que tinha melhores condições. Recebeu os cuidados materiais necessários mas a parte emocional ficou muito prejudicada. Ouvia sempre a tia falar sobre os gastos necessários para mantê-la, além de outras situações emocionalmente desagradáveis. Assim ela foi desenvolvendo a sensação de se sentir um peso. Receber tudo aquilo tinha um preço bem alto. Uma parte do preço foi ter ficado afastada dos pais, o que a privou de uma criação com mais afetividade. A outra parte do preço foi ter desenvolvido o sentimento de culpa e uma sensação de ter uma dívida impagável com a tia.

Ela começou a sentir que receber algo era é o mesmo que ficar devendo. Sempre que recebia algo, tinha que retribuir na hora para aliviar o desconforto. Imagine os prejuízos que esse padrão pode causar nos relacionamentos e na vida profissional de alguém.

Avalie a si próprio. Sente dificuldade em receber presentes? Precisa presentear ou fazer algo de volta pela pessoa para ficar em paz? Consegue receber elogios de forma natural ou precisa minimizá-los ou retribuí-los na mesma hora? Quando há uma possibilidade de ganhar algo de bom (um sorteio, uma promoção no trabalho, uma viagem...) tem uma tendência de deixar para outras pessoas ou você também quer ganhar e aproveitar? Se você conquista uma situação melhor (maior salário, vida mais confortável) precisa justificar pra você mesmo ou para os outros o tanto que você trabalhou para conquistar aquilo? Quando adquire algum bem (carro, casa, roupas) você precisa pensar e justificar para você mesmo ou para os outros que esforçou bastante para se sentir bem com o que adquiriu? Se algo vier muito fácil, você aceita e usufrui tranquilamente, ou aproveita mas com sentimento de culpa?

Existe ainda a crença do merecimento ligada a questões espiritualistas e religiosas. "Fulano não teve o merecimento para se curar de tal doença". "Eu não tive o merecimento para sair da situação financeira difícil que vem desde a infância." "Se for do merecimento de fulano, ele irá conseguir". "Se você não saiu ainda dessa situação é porque não é do seu merecimento". Fica simples e conformista demais uma justificativa dessa forma. Desenvolve-se um sentimento de que, se tem algo negativo, é porque essa pessoa "merece" passar por aquilo, até quando ninguém sabe. Por muitas vezes isso acaba gerando uma perpetuação do sofrimento por culpa e auto punição. As vezes as pessoas se tornam passivas e deixam de compreender mais profundamente as razões daquele sofrimento, perdendo também a chance transformá-lo.

Deveríamos aproveitar o exemplo dos animais que não questionam se merecem algo ou não. Eles sempre aproveitam a abundância. E quando passam por dificuldades fazem o melhor que podem para sair delas, sem se preocupar ou sentir culpa se fizeram ou deixaram de fazer algo para passar por aquilo.

Declare-se merecedor, e vá em busca do que você deseja. Seja persistente até alcançar o que deseja. Se a solução vier rápida e facilmente, aceite e aproveite. Não compre o título que alguém tente lhe passar de ‘não merecedor pois isso acaba apenas criando passividade e culpa. Acredito que todos nós, de forma consciente ou inconsciente demos causa ao nosso sofrimento, ou atraímos ou pelo menos contribuímos para ele. Ainda assim, todos merecem se libertar do sofrimento.

por Andre Lima.

Muito bom para refletir.
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